Ha Ha Ha
Tudo o que nos é mostrado em todos os lugares e a cada instante é tão superficial, tão cuidadosamente arranjado, tão simples, tão...FALSO!
Tudo, absolutamente tudo, os políticos são falsos, as noticias são falsas, as personalidades são falsas, as facilidades são falsas, as oportunidades são falsas, os benefícios são falsos, as fotos da comida no painel da lanchonete são falsas, o cabelo das modelos nas revistas é falso, os gemidos da Emanuelle são falsos, os músicos que tocam no radio são falsos, as estatísticas do governo são falsas, os peitos das celebridades são falsos, os números do ibope são falsos, as histórias “basedas em fatos reais” são falsas, os CDs são falsos, os programas de computador são falsos, os maços de cigarro são falsos, as pílulas anticoncepcionais são falsas, as notas são falsas, os músculos dos caras sarados são falsos, a autodeterminação dos povos é falsa, o amor é falso. Tudo é falso.
E nós estamos tão acostumados a essa vastidão de falsidades que agente acaba se acomodando com isso. Acabamos acreditando na idéia (talvez pela insistência invencível daqueles que a vendem...) de que a vida pode ser perfeita. De que tudo pode ser lindo e maravilhoso. Que o esforço e o trabalho são ônus que podemos driblar.
Mas por incrível que pareça, a vida ainda é de verdade (ao menos é o que parece...). Afinal nada do que agente planeja dá certo, as coisas saem sempre o oposto do que se imagina. E ultimamente é isso que nos dá a medida exata do que é ou não real.
Você só percebe que sua vida nunca poderia ser igual à de um personagem de novela ou de um Holywood movie quando se dá conta de que nada é perfeito, de que agente chora as vezes, de que o mundo não é justo, de que as pessoas não valem a pena, de que você não gosta do que vê no espelho, de que o amor eterno e indissolúvel não existe.
Mas ao contrario do que aqueles que nos bombardeiam infinitamente com falcatruas maravilhosas esperam que você faça, a solução não é se entregar ao “mundo de mentirinha”, ao paraíso perfeito dos anúncios publicitários, e sim, encarar a imperfeição de frente e aprender a gostar dela. Eu sei que não é fácil, (quem nunca quis “morar” num anuncio de cerveja???), mas é o que nos resta. A vida pode até não ser o que eu gostaria que fosse, mas ela é o que é, e eu prefiro ficar com isso do que continuar sendo enganado...
Poema Em Linha Reta
"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."
Álvaro de Campos
