Rodrigo


sleepy hollow

Segunda-feira, Novembro 22, 2004

Ha Ha Ha

Tudo o que nos é mostrado em todos os lugares e a cada instante é tão superficial, tão cuidadosamente arranjado, tão simples, tão...FALSO!
Tudo, absolutamente tudo, os políticos são falsos, as noticias são falsas, as personalidades são falsas, as facilidades são falsas, as oportunidades são falsas, os benefícios são falsos, as fotos da comida no painel da lanchonete são falsas, o cabelo das modelos nas revistas é falso, os gemidos da Emanuelle são falsos, os músicos que tocam no radio são falsos, as estatísticas do governo são falsas, os peitos das celebridades são falsos, os números do ibope são falsos, as histórias “basedas em fatos reais” são falsas, os CDs são falsos, os programas de computador são falsos, os maços de cigarro são falsos, as pílulas anticoncepcionais são falsas, as notas são falsas, os músculos dos caras sarados são falsos, a autodeterminação dos povos é falsa, o amor é falso. Tudo é falso.
E nós estamos tão acostumados a essa vastidão de falsidades que agente acaba se acomodando com isso. Acabamos acreditando na idéia (talvez pela insistência invencível daqueles que a vendem...) de que a vida pode ser perfeita. De que tudo pode ser lindo e maravilhoso. Que o esforço e o trabalho são ônus que podemos driblar.
Mas por incrível que pareça, a vida ainda é de verdade (ao menos é o que parece...). Afinal nada do que agente planeja dá certo, as coisas saem sempre o oposto do que se imagina. E ultimamente é isso que nos dá a medida exata do que é ou não real.
Você só percebe que sua vida nunca poderia ser igual à de um personagem de novela ou de um Holywood movie quando se dá conta de que nada é perfeito, de que agente chora as vezes, de que o mundo não é justo, de que as pessoas não valem a pena, de que você não gosta do que vê no espelho, de que o amor eterno e indissolúvel não existe.
Mas ao contrario do que aqueles que nos bombardeiam infinitamente com falcatruas maravilhosas esperam que você faça, a solução não é se entregar ao “mundo de mentirinha”, ao paraíso perfeito dos anúncios publicitários, e sim, encarar a imperfeição de frente e aprender a gostar dela. Eu sei que não é fácil, (quem nunca quis “morar” num anuncio de cerveja???), mas é o que nos resta. A vida pode até não ser o que eu gostaria que fosse, mas ela é o que é, e eu prefiro ficar com isso do que continuar sendo enganado...


Poema Em Linha Reta

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."
Álvaro de Campos

Sábado, Novembro 20, 2004

Dá pra entender???

O rock morreu, o Bush ganhou, ser alternativo é usar all star e assistir MTV, o Ozzy foi jantar na casa branca, 50% dos usuários do orkut são brasileiros, o mais novo ídolo pop-rock inglês falou mal das boy bands, o Michael Moore não vai concorrer ao Oscar, tem uma lésbica na novela das 8, o Iron Maiden ainda não acabou, Paulo Coelho é literatura brasileira, Machado de Assis é para-didático, ninguém sabe a diferença entre um trombone e um trompete, o Jô Soares é um intelectual, o Yasser Arafat morreu, a média de vida de um brasileiro é de 68 anos e agente só pode se aposentar aos 65, ninguém sabe o que foi a comuna de Paris, o Gugu ainda tem um programa, o preço médio de um cd é de R$25,00, meu vizinho tem uma arma, eu não tenho um celular, o Charlie Brown Jr. é a melhor banda do Brasil, o Michael Jackson vai ser preso por molestar um garotinho, o petróleo vai acabar, só há 2 Beatles vivos, eu só vi 3 peças de teatro na minha vida, a Avril Lavigne é canadense, eu já ouvi uma sonata, existem 4 filmes chamados “Beethoven” e todos eles são estrelados por cachorros, o Paulo Vilhena tem tatuagens, o José Serra vai ser prefeito, todo mundo gosta de “Friends”, todas as novelas são românticas, os japoneses pintam os cabelos de vermelho, os brasileiros fazem convenções de mangá, remédios antidepressivos podem levar ao suicídio, o Zakk Wylde fez um filme, o Colin Powel é negro e já não é mais secretario de segurança, Jesus era judeu e nasceu 4 anos antes de cristo, a Madona tem 2 filhos e quase 50 anos, não existem carros voadores, o Van Halen voltou e gravou outra coletânea, a Luciana Gimenez tem audiência, o Antonio Abujanra tá na novela das 6, na minha casa tem sapos, uma blusa Adidas custa R$199,00, meu professor não sabe o que significa posterior, Caubi Peixoto foi o primeiro a re-gravar “rock around the clock”, o Brasil enriquece urânio, a Fantine toca guitarra, o Padre Marcelo tem um filme com a Giovanna Antonelli e um com o Thiago Lacerda, o Nightwish tem um clipe superproduzido, o flamengo ainda não foi rebaixado, o Megadeth lançou seu ultimo disco, Capital inicial é uma banda de rock, atacaram o Iraque de novo, a igreja universal é dona de varias redes de radio e televisão, a fuvest custou R$100,00, pra onde esse mundo vai???

Quarta-feira, Novembro 17, 2004

Querido Diário

Eu estou começando a ficar de saco cheio. É, já ta tudo muito repetitivo, tudo muito igualzinho. Nada mais tem emoção, aliás, tem sim, a sensação de ser um loser é cada vez pior.
Sei lá, acho que eu to precisando mudar. Uma experiência extra corpórea quem sabe. Tudo bem, não sejamos tão radicais. Mas que é mister que algo aconteça, isso é. Pra me tirar dessa merda.
O pior é que a idéia de que tudo isso é culpa minha mesmo não sai da minha cabeça. Sim, mas que culpa tenho eu de ser assim?
Ta certo, ta certo. Eu sei que desculpa de aleijado é muleta, mas me diga se eu não tenho razão: eu já to tão a acostumado a ser eu mesmo que fica difícil ser outra coisa.
Ai, ai.era bom quando eu tinha 3 anos de idade e as minhas únicas procupações eram não perder o horário dos Changemans e decidir qual seria a próxima brincadeira.
É, mais isso foi a muito tempo atrás e agora... Bom e agora?

Terça-feira, Novembro 09, 2004

if i

Se eu fosse mais bonito, se eu fosse mais esperto, se eu fosse mais simpático, se eu fosse mais forte, se eu fosse mais rico, se eu fosse mais legal, se eu fosse mais normal, se eu fosse mais corajoso, se eu fosse mais amável, se eu fosse mais alegre, se eu fosse mais rápido, se eu fosse mais romântico, se eu fosse mais comunicativo, se eu fosse mais útil, se eu fosse mais bronzeado, se eu fosse mais musculoso, se eu fosse mais solto, se eu fosse mais oportunista, se eu fosse mais sedutor, se eu fosse mais contundente, se eu fosse mais popular, se eu fosse mais sociável, se eu fosse mais impulsivo, se eu fosse mais engraçado, se eu fosse mais elegante, se eu fosse mais descolado, se eu fosse mais sofisticado, se eu fosse mais aberto, se eu fosse mais expansivo, se eu fosse mais objetivo, se eu fosse mais maduro, se eu fosse mais lógico, se eu fosse mais presente, se eu fosse mais tagarela, se eu fosse mais fácil, se eu fosse mais seguro, se eu fosse mais livre, se eu fosse mais amigo, se eu fosse mais desencanado, se eu fosse mais esforçado, se eu fosse mais educado, se eu fosse mais importante, se eu fosse mais claro, se eu fosse mais humilde, se eu fosse mais moderno, se eu fosse mais simples, se eu fosse mais cheiroso, se eu fosse mais atraente, se eu fosse mais atencioso, se eu fosse mais cara-de-pau, se eu fosse mais talentoso, se eu fosse mais passional, se eu fosse mais light, se eu fosse mais vaidoso, se eu fosse mais precavido, se eu fosse mais decidido, se eu fosse mais alinhado, se eu fosse mais experiente, se eu fosse mais famoso, se eu fosse mais bem resolvido, se eu fosse mais ético, se eu fosse mais sortudo, se eu fosse mais gostoso, se eu fosse mais leve, se eu fosse mais adequado, se eu fosse mais ousado, se eu fosse mais produtivo, se eu fosse mais sedutor, se eu fosse mais competitivo, se eu fosse mais irreverente, se eu fosse mais aplicado, se eu fosse mais direto, se eu fosse mais confiante, se eu fosse mais especifico, se eu fosse mais inteligente, se eu fosse mais modesto, se eu fosse mais imprevisível, se eu fosse mais admirável, se eu fosse mais cativante, se eu fosse mais especial, se eu fosse mais safado, se eu fosse mais carismático, se eu fosse bom, se eu fosse melhor, se eu fosse tudo o que eu quisesse ser, eu seria qualquer coisa, menos eu...

Quinta-feira, Novembro 04, 2004

Concerto

Ele estava em casa, não sabia o que pensar depois do que houvera acontecido. Perguntava-se porque tudo tinha de ser daquele jeito. Estava confuso. Eram milhões de pensamentos, vozes polifônicas, mais para Stravinsky do que para Bach. Rodando incessantemente. Sentado no sofá da sala. O peso em seus ombros fazia-o pensar que já estava assim há anos.
Decisões não eram bem o seu forte, mas aquela ninguém mais poderia tomar por ele. Sentia a tristeza melancólica de um acorde menor com sétima. Ainda assim, estava longe de um réquiem, sentia mais como um noturno. Ou, um longuíssimo e romântico adágio, executado a mais de vinte anos e interrompido apenas por breves momentos de alegro vivace. Mas ele fez, e agora não podia mais voltar atrás. Pensando bem, nem era isso que queria.
Lembrou-se dela mais uma vez, por certo não seria a última, essas coisas não se esquecem assim tão fácil. Já não estava mais dentro dele, tinha ido à Veneza ou ao inferno talvez, não importava mais.
Agora tinha outras prioridades. A primeira delas era levantar-se dali. Tomar um banho, comer alguma coisa. Finalmente dera-se conta de que estava na hora de uma ária. A sua ária. A timidez é uma ambição disfarçada de humildade. Sem desejo de grandeza não há medo de falha. Pensar sobre o problema não resolve o problema. Fez sinal para o maestro adiantar o andamento pois já pressentia os primeiros bocejos da platéia. Saiu.
Olhou as flores, viu a grama, havia sol aquele dia. Não quis mais voltar. E não voltou. Seguia em frente, molto presto. Ouvia Chopin e Liszt, lembrou-se de Paganini e resolveu que seria como ele. Decidiu-se: ninguém o iria impedir...